Nutrição Desportiva · Módulo 6

Toxicologia Nutricional e Segurança de Suplementos

6.1 Contaminação em Suplementos Comerciais

O mercado global de suplementos alimentares movimenta dezenas de milhares de milhões de euros anualmente, com uma regulamentação significativamente mais permissiva do que a dos medicamentos. Ao contrário dos fármacos, os suplementos não requerem demonstração de eficácia e segurança antes de serem comercializados na maioria das jurisdições (incluindo os EUA, ao abrigo do DSHEA de 1994, e muitos países europeus). Esta realidade cria um ambiente propício à contaminação — acidental ou deliberada — com substâncias não declaradas no rótulo.

A WADA e várias organizações antidoping publicaram repetidamente avisos sobre os riscos de contaminação de suplementos. As substâncias encontradas com maior frequência em suplementos contaminados incluem: esteróides anabolizantes androgénicos (EAA) e seus percursores (pro-hormonas), SARMs (Selective Androgen Receptor Modulators), estimulantes (efedrina, sinefrina, DMAA, DMBA), diuréticos, moduladores metabólicos (GW501516 — cardarine, um PPAR-delta agonista com preocupações oncológicas em modelos animais) e, mais recentemente, péptidos como os secretagogos de GH.

Um caso clinicamente documentado e publicado em Clinical Chemistry and Laboratory Medicine em 2025 ilustra dramaticamente os desafios do princípio da responsabilidade objectiva. Dois atletas sancionados pela presença de trimetazidina na urina (substância S4 — modulador cardíaco) foram capazes de demonstrar que o suplemento utilizado continha quantidades residuais do fármaco (4 ng/comprimido e 7,2 µg/comprimido, respectivamente). Apesar da coerência farmacológica dos dados — as concentrações urinárias eram compatíveis com ingestão acidental de traços, e os testes de cabelo foram negativos (o que exclui uso crónico) — os atletas foram sancionados com períodos de inelegibilidade de 6 meses, salientando que a prova da ausência de culpa ou negligência em casos de contaminação é um caminho processualmente muito exigente.

Kintz P. No fault or negligence after an adverse analytical finding due to a contaminated supplement: mission impossible. Two examples involving trimetazidine. Clin Chem Lab Med. 2025;63(11):2171–2176. https://doi.org/10.1515/cclm-2025-0549

6.2 SARMs e Estimulantes em Suplementos

Uma revisão publicada em 2025 sobre contaminação de suplementos com SARMs e esteróides anabolizantes analisou o panorama de substâncias proibidas detectadas em suplementos comerciais. Os SARMs, como o Ostarine (MK-2866), o Ligandrol (LGD-4033) e o RAD-140, são agonistas selectivos dos receptores androgénicos desenvolvidos originalmente para uso clínico em sarcopenia, osteoporose e caquexia oncológica — mas comercializados ilegalmente sob a forma de suplementos, frequentemente rotulados como «moduladores hormonais» ou «impulsionadores de testosterona».

Contreras-Noguera C, et al. Sports supplement contamination with prohibited substances SARMs anabolic steroids. Clin Chem Lab Med. 2025. https://doi.org/10.1515/cclm-2025-0549

6.3 Estratégias de Mitigação do Risco

A abordagem food first constitui a primeira linha de defesa contra os riscos de contaminação. Quando a suplementação é genuinamente necessária, a selecção deve recair sobre produtos com certificação por organismos de terceiros independentes que realizam análises laboratoriais para verificar a composição declarada e a ausência de contaminantes proibidos. Os programas de certificação mais reconhecidos internacionalmente incluem o Informed Sport (NSF), o Cologne List® e o HASTA. Estes programas testam o produto por lote, o que oferece uma garantia significativamente superior à da simples declaração do fabricante.

Protocolo de segurança recomendado para atletas: (1) preferir alimentos integrais sempre que possível; (2) se suplementar, escolher apenas produtos com certificação Informed Sport, Cologne List ou equivalente; (3) verificar o número de lote do produto na base de dados do programa de certificação antes de cada nova embalagem; (4) reportar qualquer suplementação ao nutricionista e ao médico da equipa.

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