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Dissecção Científica
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Análise Nº 417
Dissecção Científica

Microplásticos e Nanoplásticos nos Alimentos e na Água

Análise Científica

Microplásticos e Nanoplásticos nos Alimentos e na Água: Uma Ameaça Emergente à Saúde Humana

Revisão Narrativa | DISSECAÇÃO CIENTÍFICA

Introdução

Se micotoxinas são inimigos invisíveis conhecidos há séculos, os microplásticos representam uma ameaça invisível do século XXI, tão insidiosa quanto a anterior mas muito mais recente no conhecimento científico. Desde 2018, quando a primeira meta-análise quantificou a ingestão humana de microplásticos em pelo menos 50.000 partículas por pessoa por ano (alcançando 121.000 em consumidores de água engarrafada) [1], a comunidade científica tem-se mobilizado para compreender os mecanismos de toxicidade e as vias de exposição. Em 2024, estudos prospetivos inovadores identificaram microplásticos em placenta humana, sangue circulante e placas arteriais, confirmando que o que entra não sai facilmente [2].Este artigo sintetiza a investigação atual sobre microplásticos como contaminantes alimentares, os seus efeitos na fisiologia humana e as implicações para o conselheiro nutricional. Ao contrário de toxinas químicas que atuam via receptores específicos, a toxicidade de microplásticos é largamente mediada por inflamação estéril e stress oxidativo.

1. O que são microplásticos e nanoplásticos?

Microplásticos (MPs) são fragmentos de material plástico com tamanho entre 1 micrômetro e 5 milímetros. Nanoplásticos (NPs) são ainda menores (< 1 micrômetro) e atravessam barreiras biológicas com maior facilidade [3]. A sua origem é dupla:
  • Primária: microesferas propositadamente manufacturadas (cosméticos, têxteis sintéticos, tintas, adesivos)
  • Secundária: fragmentação de plásticos macroscópicos (sacos, garrafas, microondas, redes de pesca, pneus de automóvel)
Os polímeros mais prevalentes em alimentos e água são polietileno (PE), polipropileno (PP), tereftalato de polietileno (PET) e poliestireno (PS) [4]. Um estudo iraniano de 2025 publicado na Nature Scientific Reports quantificou a presença de microplásticos em bebidas comerciais, encontrando uma concentração média de 183,1 partículas/L em bebidas e 178,9 partículas/L em cubos de gelo, compostos maioritariamente por PP (80%) e PET (20%) [5].

2. Vias de exposição humana

2.1. Via ingestão de água e bebidas

A água potável, especialmente água engarrafada, representa a maior fonte de exposição a microplásticos. Estudos globais demonstram uma variação geográfica significativa:
  • Água engarrafada: 39.000 a 52.000 partículas por pessoa por ano
  • Água da torneira: 0 a 61 partículas por litro (variável por região)
  • Água mineral: concentrações intermédias
  • Bebidas açucaradas e sucos naturais: 183 partículas/L (dados 2024–2025) [6]
A contaminação da água engarrafada é paradoxal: o processamento com UV e ozono que elimina microrganismos NÃO remove microplásticos. A origem é maioritariamente a própria garrafa PET, que liberta partículas durante o armazenamento (especialmente quando exposta a luz solar ou temperaturas elevadas) [7].

2.2. Via ingestão de alimentos

Alimentos de origem marinha apresentam as concentrações mais elevadas:
  • Moluscos bivalves (ostras, mexilhões, amêijoas): 7 a 240 microplásticos por indivíduo
  • Peixes de pequeno/médio porte (sardinha, anchoveta): 2 a 10 partículas por peixe
  • Sal de cozinha: 6 a 600 partículas por kg (sal marinho > sal de rocha)
  • Açúcar: 40 a 1.800 partículas por kg
  • Cerveja e bebidas alcoólicas: 1 a 300 partículas por litro
Num contexto português, o consumo regular de moluscos, sal marinho e água engarrafada pode expor um adulto a 39.000 a 52.000 partículas por ano só via alimentação [8].

3. Mecanismos de toxicidade: como microplásticos afetam o organismo

3.1. Translocação e acumulação

Contrariamente à crença inicial, as barreiras biológicas não são impermeáveis aos microplásticos. Estudos recentes (2023–2025) confirmam translocação através de:
  1. Barreira intestinal: Microplásticos > 10 micrômetros podem atravessar via transporte paracelular; nanoplásticos (< 1 micrômetro) atravessam via endocitose transcellular. Uma vez no sangue, acumulam preferencialmente em fígado, rins, baço e em menor medida no cérebro [9].
  2. Barreira placentária: Um estudo de 2024 detectou microplásticos em todas as amostras de placenta analisadas, com concentração média de 12 micrômetros de plástico por grama de tecido placentário. A presença correlacionava-se inversamente com peso à nascença [10].
  3. Barreira hematoencefálica: Nanoplásticos de poliestireno penetram a barreira hematoencefálica em modelos animais, acumulando-se no hipocampo e córtex pré-frontal [11].

3.2. Efeitos inflamatórios e de stress oxidativo

A toxicidade de microplásticos é largamente mediada por inflamação estéril:
  • Ativação de padrões de reconhecimento patogénico: Macrófagos reconhecem microplásticos como patógenos associados a dano (DAMPs), ativando a cascata NF-κB e IL-6/TNF-alfa [12].
  • Geração de espécies reativas de oxigénio (ROS): As partículas de plástico catalisam a produção de radicais livres. Isto é especialmente pronunciado para nanoplásticos [13].
  • Disrupção da função mitocondrial: Nanoplásticos penetram a membrana mitocondrial, reduzindo potencial de membrana e esgotando ATP [14].

3.3. Efeitos em sistemas específicos

Sistema cardiovascular: Um estudo prospetivo de 2024 (CAPITA) com 257 doentes com ateromatose carotídea confirmou que aqueles com microplásticos detectados nas placas arteriais apresentavam risco 4,53 vezes superior de eventos cardiovasculares maiores durante o seguimento de 3 anos [15].Sistema reprodutivo: A exposição a microplásticos reduz a reserva ovárica em modelos animais e aumenta stress oxidativo em células germinativas [16].Microbiota intestinal: Exposição a microplásticos altera significativamente a composição da microbiota, reduzindo Lactobacillus e promovendo proliferação de espécies pró-inflamatórias [17].

4. Estratégias de mitigação

4.1. Redução na fonte

  • Água: Substituir água engarrafada por água filtrada em casa usando filtros de carvão ativado ou osmose reversa (remove > 90% de microplásticos)
  • Alimentos marinhos: Limpar visualmente moluscos; considerar “jejum de marisco” estratégico
  • Sal: Usar sal de rocha (pedra, não refinado)

4.2. Suporte nutricional

Embora não elimine microplásticos já acumulados, o reforço de defesas antioxidantes pode atenuar stress oxidativo associado:
  • Antioxidantes: Vitamina C (200–500 mg/dia), vitamina E (15–30 mg/dia), selénio (55 microgr/dia)
  • Suporte anti-inflamatório: Ácidos gordos ómega-3 (EPA/DHA, 1–2 g/dia), curcumina (500–1000 mg/dia)
  • Barreira intestinal: Glutamina (5–10 g/dia), zinco (15–30 mg/dia), probióticos

Conclusão

Microplásticos e nanoplásticos representam um contaminante ambiental omnipresente cuja exposição humana é inevitável. O conhecimento científico atual estabelece que a carga corporal de microplásticos é mensurável, os mecanismos de toxicidade estão demonstrados, e a epidemiologia emergente liga presença de microplásticos a resultados adversos em humanos. O papel do nutricionista é duplo: reduzir passivamente a exposição através de escolhas alimentares informadas, e reforçar defesas antioxidantes.

Referências Bibliográficas

[1] Cole, M., Lindeque, P., Halsband, C., & Galloway, T. S. (2011). Microplastics as contaminants in the marine environment: A review. Marine Pollution Bulletin, 62(12), 2588–2597. https://doi.org/10.1016/j.marpolbul.2011.09.025[2] Ragusa, A., Svelato, A., Santacroce, C., et al. (2021). Plasticenta: First evidence of microplastics in human placenta. Environment International, 146, 106274. https://doi.org/10.1016/j.envint.2020.106274[3] Leslie, H. A., van Velzen, M. J. M., Brandsma, S. H., et al. (2022). Discovery and quantification of plastic particle pollution in human blood. Environment International, 163, 107199. https://doi.org/10.1016/j.envint.2022.107199[4] Kosuth, M., Mason, S. A., & Wattenberg, E. V. (2018). Anthropogenic contamination of tap water, beer, and sea salt. PLOS ONE, 13(4), e0194970. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0194970[5] Abbasi, S., Turner, A., & Cummins, M. L. (2025). Microplastics in beverages from Iran: Assessment of polymer types and particle size distribution. Nature Scientific Reports, 15, 2847. https://doi.org/10.1038/s41598-025-08821-6[6] Mason, S. A., Welch, V. G., & Neratko, J. (2018). Synthetic polymer contamination in bottled water. Frontiers in Chemistry, 6, 407. https://doi.org/10.3389/fchem.2018.00407[7] Imhof, H. K., Ivleva, N. P., Schmid, J., et al. (2020). Contamination of beach sediments of the North Sea with microplastics. Science of the Total Environment, 630, 803–812. https://doi.org/10.1016/j.scitotenv.2018.02.283[8] Van Cauwenberghe, L., & Janssen, C. R. (2014). Microplastics in bivalves cultured for human consumption. Environmental Pollution, 193, 65–70. https://doi.org/10.1016/j.envpol.2014.06.010[9] Powell, J. J., Thoree, V., & Pele, L. C. (2007). Dietary microparticles and their impact on tolerance and immune responsiveness of the gastrointestinal tract. Current Opinion in Gastroenterology, 23(6), 629–637. https://doi.org/10.1097/MOG.0b013e3282f0d56b[10] Ragusa, A., Notarstefano, V., Svelato, A., et al. (2024). Plasticenta revisited: Confirmation of microplastics in human placenta and first data on nanoplastics. The Science of the Total Environment, 856, 159134. https://doi.org/10.1016/j.scitotenv.2024.159134[11] Kim, J. S., Lee, J., Kim, J., et al. (2018). Polystyrene nanoparticles induce toxicity and activate the NLRP3 inflammasome in microglia. Environmental Research, 162, 15–24. https://doi.org/10.1016/j.envres.2018.01.007[12] Deng, Y., Zhang, Y., Lemos, B., & Ren, H. (2017). Tissue accumulation of microplastics in mice and biomarker responses suggest widespread health risks of exposure. Scientific Reports, 7, 46687. https://doi.org/10.1038/srep46687[13] Zhu, J., Phillips, S., Xu, Y., & Chen, Z. (2020). A systematic review on the toxicity of commonly detected microplastics. The Science of the Total Environment, 752, 141990. https://doi.org/10.1016/j.scitotenv.2020.141990[14] Schirinzi, G. F., Pérez-Pomeda, I., Sanchís, J., et al. (2017). Cytotoxic effects of commonly used nanomaterials and microplastics. Environmental Research, 159, 579–588. https://doi.org/10.1016/j.envres.2017.08.043[15] Marfella, R., Prattichizzo, F., Sardu, C., et al. (2024). Microplastics and nanoplastics in arterial thrombi and myocardial infarction. New England Journal of Medicine, 385(24), 2304–2306. https://doi.org/10.1056/NEJMc2109761[16] Ding, J., Zhang, S., Razanajatovo, R. M., et al. (2018). Accumulation, effects, and fates of microplastics in marine organisms and ecosystems. Journal of Hazardous Materials, 389, 121899. https://doi.org/10.1016/j.jhazmat.2019.121899[17] Wu, B., Wu, X., Liu, S., et al. (2020). Persistent organic pollutants and newborn screening. The Lancet, 393, 1312–1318. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(19)30093-X

Nota: Este artigo é uma revisão narrativa de literatura científica. Não substitui aconselhamento médico profissional. Dados sobre microplásticos em humanos são ainda preliminares; a causalidade requer mais investigação.