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A coocorrência clínica entre hipermobilidade articular, dermatite atópica, alergias e Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção deixou de ser anedótica — e aponta para mecanismos biológicos partilhados, com implicações nutricionais concretas.
A hipermobilidade articular generalizada pode ser entendida como uma alteração da matriz do tecido conjuntivo, com fibras de colagénio e elastina a apresentarem propriedades biomecânicas distintas. Este enquadramento ajuda a explicar por que razão a hipermobilidade surge, com frequência crescente, associada a condições do neurodesenvolvimento.
Csecs et al. (2022) avaliaram 109 adultos com diagnóstico formal de condição do neurodesenvolvimento e encontraram uma prevalência de hipermobilidade substancialmente superior à observada na população geral do Reino Unido.
As guidelines da American Academy of Dermatology incluem explicitamente a PHDA entre as comorbilidades associadas à dermatite atópica. Esta relação é reforçada por sínteses de evidência recentes que apontam para uma associação consistente entre doenças alérgicas e alterações do neurodesenvolvimento.
Na revisão umbrella de Xu et al. (2024), que analisou 37 associações entre doenças alérgicas e saúde mental, a ligação entre asma e PHDA apresentou credibilidade máxima, enquanto a relação entre dermatite atópica e PHDA foi classificada como altamente sugestiva.
Os mastócitos respondem não apenas a IgE, mas também a stress, temperatura e neuropéptidos. Quando ativados, libertam histamina, citocinas e outros mediadores capazes de produzir, em simultâneo, sintomas alérgicos, dor, disautonomia e neuroinflamação.
Weinstock et al. (2023) descreveram uma série de casos que ilustra esta convergência clínica e ajuda a organizar o raciocínio em torno de um fenótipo multissistémico.
No plano nutricional, a evidência mais consistente favorece padrões alimentares globais de perfil anti-inflamatório, em vez de abordagens centradas em um único nutriente. A baixa adesão à dieta mediterrânica foi associada a maior probabilidade de diagnóstico de PHDA.
No caso dos ácidos gordos ómega‑3, a meta-análise de Chang et al. (2018), com 7 ensaios clínicos aleatorizados e 534 participantes, encontrou benefício tanto em sintomas clínicos como em medidas cognitivas de atenção. Além disso, crianças com PHDA apresentaram níveis sanguíneos de DHA e EPA significativamente inferiores.
Além do padrão alimentar, alguns micronutrientes merecem atenção clínica particular por participarem em vias relacionadas com neurotransmissão, inflamação, barreira epitelial e regulação do sono.
Ferro: cofator da tirosina-hidroxilase e, por isso, relevante para a síntese de dopamina. A ferritina sérica deve ser avaliada quando há suspeita clínica de défice.
Zinco: participa na modulação dopaminérgica e na integridade da barreira cutânea. Valores baixos têm sido descritos em pessoas com PHDA.
Magnésio: envolvido na função dos recetores NMDA e GABA, com impacto potencial sobre sono, irritabilidade e regulação emocional.
Iodo: a deficiência crónica pode associar-se a agravamento sintomático, sobretudo em fases críticas do neurodesenvolvimento.
Vitamina D: McCarthy et al. (2024), num estudo com 681 crianças e jovens adultos com eczema, observaram correlação inversa entre 25(OH)D e gravidade da dermatite medida por EASI.
Peixes gordos pequenos — sardinha, cavala, arenque (2–3×/semana)
Azeite virgem extra — fonte de polifenóis anti-inflamatórios
Frutos secos e sementes — nozes, amêndoas, sementes de abóbora
Leguminosas — fornecem ferro, zinco, magnésio e fibra
Vegetais de folha verde-escura
Cereais integrais e pseudocereais — aveia, quinoa
Ovos — colina e vitamina D
Fermentados — iogurte, kefir, chucrute
Ultraprocessados — snacks, refrigerantes, pré-confecionados
Corantes artificiais e benzoato de sódio, como E102, E104 e E110
Açúcar de adição e bebidas açucaradas
Histaminoliberadores, quando há sinais compatíveis com MCAS — como queijos curados e enchidos
Gorduras trans industriais
A tríade hipermobilidade-atopia-PHDA é hoje uma associação biologicamente coerente, sustentada por alterações do tecido conjuntivo, ativação mastocitária, eixo intestino-cérebro-pele e neuroinflamação de baixo grau.
Nenhum alimento isolado trata estas condições. Ainda assim, o padrão mediterrânico, o reforço de ómega‑3, a correção de micronutrientes e o cuidado com a microbiota reúnem a evidência mais robusta de benefício conjunto.